terça-feira, 3 de junho de 2008

Caronas,

Ela só queria um tempo. Acreditava que se tivesse esse tão querido por todos, “tempo”, escreveria mais. E escrevendo, se entenderia mais. Seria bom ter tempo para conversar mais com os amigos, para fazer o que se gosta. Se tivesse mais tempo, poderia praticar exercício físico, estudar, ir ao forró, conhecer mais gente, fazer estágio, dar aula para criança. Quem sabe até fazer o seu inglês e sua auto-escola, ambos já iniciados, mas interrompidos pela tão famosa “falta de tempo”. Meu Deus era tanto a se fazer!
Mas de tudo isso, mais urgente era a auto-escola. Ela havia descoberto que autonomia se conquistava não com idade avançada ou maturidade atingida, apenas: autonomia se conquistava, principalmente, com uma carteira de motorista. Era isso, era preciso aprender a dirigir – legalmente (o que é importante lembrar).
Paradoxalmente a esse incrível desejo, estava um sentimento de perda. Todo esse tempo “a pé” permitiu a Ela fazer novos amigos, conhecer outros ambientes e, sobretudo, desenvolver sua paciência. Ela via até com certa alegria o trajeto diário do 5102, 1170 e finalmente, do 8103. Já podia dizer onde os três ônibus, e mais alguns, possuíam pontos e quem eram as pessoas que, todos os dias, a acompanhavam. Mas, mesmo considerando positivamente o transporte público, eram as caronas as principais responsáveis por deixá-la menos incomodada por não dirigir. Santas caronas. E Ela sabia valorizá-las.
Como era bom ir para o forró com o amigo que, pacientemente, escutava todas as suas dúvidas, ansiedades, medos, saudades. Coitado, ele escutava muito. E Ela gostava que ele escutasse.
Como era bom, também, voltar com o outro amigo. E, agora, era Ela quem escutava. E adorava escutar. E ria das histórias, dos “babados” da noite e das piadas mais sem graça. E descobria-se feliz. E descobria-se autônoma, nessa disfarçada falta de autonomia.

3 comentários:

Ana disse...

"...quem eram as pessoas que, todos os dias, a acompanhavam..."

uhnnn.... será que sou eu??

Hugo Machado disse...

e muitas caronas estão por vir...

será?

tomara!

Barbara disse...

canta o teu encanto e me encanta com teu canto.. que daqui do outro lado do mundo eu posso escutar, tao doce, tao bonito.
=]