quarta-feira, 28 de abril de 2010

Confissão

Nove meses em Maceió e posso sentir as dores do parto. A saudade de uma vida em Belo Horizonte (e que horizonte belo!) parece - a todo o momento - rivalizar com a atual meta e desejo de serviço à Causa de Deus.

É o clima fresco e limpo de BH que invade o ônibus alagoano enquanto vou para UFAL; é o cartaz colado na parede da Universidade anunciando os melhores cursos em uma cidade tão distante, lá para o Sudeste brasileiro (eita, Minas distante...); é o forró bem ao pé do ouvido, quando, sozinha, deito para dormir e me permito ir, por alguns minutos, às bandas mineiras; são as lembranças - inevitáveis, diria - de momentos deliciosamente mineiros. Às vezes, é o meu próprio sotaque, quando digo (poucas vezes, confesso) um uai firme em vez do (já) habitual eita.

Ainda não contei a ninguém. Portanto, leitor, guarde segredo. É que pelo menos uma vez ao dia passeio pela Raja Gabáglia. Quando me é possível, entro em alguns lugares e consigo voltar o tempo. São lembranças distantes e recentes: primeiro, a ida para o colégio, depois os sábados no Ateliê e as segundas ou quartas na Floricultura. Ah, caminho da roça...

E quando dali tenho que ir, sigo para a Prudente de Morais. Lá é onde jogo capoeira, onde sinto o frio na barriga ao pé do berimbau e a alegria contagiante das palmas e vozes negras na roda. É por ali também que chego à casa de meus avós. Vejam! Agora estão sentados tomando café. Vovô em sua cadeira de sempre e vovó ao seu lado - como todos esses anos. À frente deles, biscoito de polvilho, broa de fubá e manteiga. Ela bebe café com leite. Ele, só leite.

A alguns poucos quilômetros dali, encontra-se minha outra avó. É para onde vou. Em seu quarto, a vejo tricotando enquanto escuta as notícias pelo rádio. Algumas vezes precisa parar - é o telefone que toca e lhe rouba uns bons minutos. Gosto de debruçar na janela de seu quarto, principalmente quando a brisa fresca vem nos visitar. A depender do momento que assim faço, vejo Carol, lá embaixo na avenida, indo ao colégio. Ou meu pai a deixando logo cedo, pela manhã. Nessas horas, estou no banco de trás do uno azul, esperando a minha vez de ser deixada na escola.

Agora posso ver! Alguém mais vê? Você, leitor? Somos Carol e eu descendo a ladeira que nos leva da Barragem à Prudente. Calças brancas, cordão verde e cinza na cintura. "Berimbau chamou". É preciso seguir...

Subindo a Joaquim Murtinho, logo estou na Savassi. Savassi da Silvia, da espera do ônibus que nos leva à Santa Tereza ou à UFMG. Savassi da Getúlio Vargas, Cristovão Colombo e Contorno. Quando não estou muito cansada, passeio pelas suas ruas. Levo sempre alguém comigo: hoje estou com minha mãe. Daqui a pouco nos sentaremos para beber uma água e conversar. Aproveitamos esses momentos, tão rápidos, para matar as saudades.

Mais um tempinho e encontrarei com Ana em frente à Ginga. Iremos à Alfredo Balena (ouvem o barulho das pessoas nas filas e o cheiro de fumaça dos ônibus? É essa a região hospitalar, abraçada pelo Parque Municipal... Parque do Conexão Vivo, Vander Lee, Paulinho Moska e Curumin. Nos vejo na fila - enorme - esperando nossos amigos. Quanto tempo... As imagens estão um pouco amareladas... percebem? Já não vejo nada. Estou acolhida no melhor abraço do mundo e ganhei o cheirinho mais gostoso do Universo).

Na volta, Ana e eu - como sempre, juntas, inseparáveis - subimos a Nossa Senhora do Carmo. Avenida de domingos na Blunt com Gabri, ainda menino; de esperas em frente ao colégio às 12h50, de sol quente, bastante sono e fome incontrolável. De Ponto do Açaí e Raízes. Avenida que conduz minha amiga até a rua Universo e esta mesma rua aos forrós de toda a cidade! E por gentileza, leitor, você pode tapar os ouvidos agora? É que estamos falando tanta bobagem. Você vê como rimos? Tudo bem, deixaremos para conversar no forró - quando o som da zabumba, da sanfona e do triângulo nos permitirão tagarelar à vontade. "Mas, Ana, quero dançar!".

De vez em quando, visito a UFMG. Pouco antes, faço o trajeto rotineiro que me conduz de casa à Universidade. Passo pela Bento Simão e me vejo correndo: 32 minutos! E, nossa, como estou vermelha e cansada! Adoro esse bairro! Que refúgio... é o da minha casa. Nossa rua, nosso prédio, nossa vizinhança. Escuto as crianças brincando após as aulas: gol a gol, aventura, esconde-esconde. Somos nós, enquanto nossos pais não retornam do trabalho.

Na UFMG, às vezes, assisto aulas, outras converso com Karine, Ana e Jorge e sinto meu coração tão apertadinho (deve ser a saudade. Mas como, se com eles estou?). Almoçamos e rimos das histórias compartilhadas.

E já é hora de ir...

Aproveito sempre os últimos instantes para sobrevoar toda a cidade. É, leitor, em BH posso voar! (Mas isso também é segredo). Do alto da Serra, fecho meus olhos e salto de braços abertos, numa tentativa de abraçar cada lugar, cada canto e Recanto que faz parte de quem hoje sou. Rua do Amendoim, Praça do Papa, Mangabeiras, Sion. Anchieta, São Bento, Belvedere e Santo Antônio. Dona Clara, Mineirão, Mercado Central. Santa Tereza, Prado, Santa Lúcia e Cidade Jardim. Centro, Cidade Nova e toda a cidade! São tantas saudades. Incontáveis, inumeráveis, imensas.

Enquanto vôo sobre Belo Horizonte, levo um pouco de cada mineiro que pertence à minha história. Trago todos os dias um pouquinho de cada um deles dentro de mim (é onde posso guardá-los). E, leitor, de coração: não tenha dúvidas! Você também está aqui. Parte de você está comigo em outro canto do Brasil, me ajudando durante a adaptação à tapioca e ao cuscuz e me aconchegando quando minha companhia é a própria solidão.

E devo admitir a você que me acompanhou até aqui: minha fraqueza exige que o retorno seja lento, gradual. Do vôo em BH, aos poucos, alcanço o mar, passo por Salvador (minhas Minas Gerais na Bahia) e chego em Maceió.

Todos os dias, após alguns minutos, vejo-me no quarto: parede verde, armário no canto esquerdo, livros na estante. Você pode ver? Sento-me na cama, o quarto está escuro e ouço apenas o ventilador. Faço uma oração e vejo minha recente viagem transformar-se em borboleta. Tão linda...

Abro a janela e a permito voar. Livre...

Já posso dormir...

5 comentários:

anafacury disse...

Lindo! Lindo como sempre... e faz a saudade ficar maior do que nunca!!!

Mr Bean disse...

a mineirinha que enfeita a terra das alagoas...é linda você!

Mami disse...

Que bom que você me leva junto mesmo que sejam por momentos rápidos...
Sinto tanta saudade! Mas a sua determinação e confiança me acalmam. Só quero ver você feliz!
Beijo grande,
Mami

Marta Moniz disse...

Oi Luiza, vi você na conferência de unidade e senti uma coisa muito boa. Encontrei seu perfil no orkut e agora li seu conto.
Me dá uma sensação tão boa, não sei explicar o quê, mas me parece tão especial.
Um abraço
Marta Moniz
Niterói/RJ

Solange Pacheco disse...

Oi Luiza querida!
Seu conto me encanta, adorei! Mas dá uma sensação tão grande de saudade, mas é uma saudade boa, de alegria por ver você indo sempre em frente, estive com a Carol noutro dia, falou-me de você,e me disse: "eu sobrei", e aí meu coração doeu, então percebí que era a "gêmea" falando. Mas deixou claro que está muito felíz pela sua nova vida, seus doces planos, enfim!!! Prá você...Felicidades mil... Solange Pacheco