quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O ar seco e os raios duros do sol recortavam a terra árida de um sertão escondido. Pouco ventava e o que era possível ouvir angustiava a alma. O silêncio se fazia Senhor e permitia, apenas à respiração ofegante, acompanhar os cascalhos se acomodando conforme a passagem da moça. Seus pés descalços, já grossos e emoldurados pela escassez nordestina, abriam o caminho longo que, quem sabe, poderia lhe levar a algum açude próximo. E a saia longa, amarrada por entre as pernas - leitos de rios azuis avermelhados que por ali não se via sequer de outra cor - por vezes arrastava a poeira para junto de si, misturando sua pele e sua roupa à paisagem sépia que parecia agora extensão de seu corpo. Os galhos retorcidos e abundantes se identificavam àquela única que se movia abaixo das poucos nuvens, espaçadas num céu alaranjado pálido. E o suor, escorrendo pelo rosto vermelho e triste, passeava pelo retrato do chão rachado, estendido à sua frente. O contato daquelas gotas com a superfície epidérmica, um dia mais feminina, servia para lhe aliviar o peso trazido em suas têmporas e chegava a lhe refrescar quando, inutilmente, o vento (pretensioso) tentava soprar por aquelas bandas. Em alguns momentos parava. Com um movimento de sua caixa torácica, introduzia em seus vasos e pulmões - rios e poços interiores - parte daquela aridez incômoda. Passava as mãos pesadas sobre a testa e retomava o passo trôpego. Ainda estava, incrivelmente, distante do azul líquido que procurava.