sexta-feira, 27 de abril de 2012

Percebi o quanto estou sem escrever, quando hoje me arrisquei a desenhar algumas palavras que, acredito eu, deveriam saltar dos meus dedos. Pensei sobre os motivos que, quem sabe, me teriam afastado daquilo que durante tanto tempo serviu como escape, espelho, estudo. E, incrivelmente, notei o tom melancólico com o qual descrevia os sentimentos daqueles que ganhavam vida em minhas doces histórias.Angústia, insegurança e uma saudade doída coloriam monocromaticamente os passos naquelas trajetórias e confundiam o leitor que, diante de suaves paradoxos, não percebia o gole seco de realidade que lhe agarrava as entranhas.

E, agora, quem não os percebe sou eu. Desde o nosso novembro, já não encontro dentro de mim aquilo que um dia alimentou os solos áridos de minha memória. Não há a seca, assim como não há aquilo que se esvai feito água. Nosso pequeno rio se transformou em mar. E levou o que era vida sem Raul.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Diário de campo


Era uma sexta-feira, no fim da tarde, quando o sol se deitava sobre a estrutura branca e recortada do Mercado do Peixe, parecendo amenizar o odor fétido vindo do canal recém reformado. Por entre as sombras que se formavam no espaço destinado às mesas de plástico laranja, ocupavam seus lugares o João, a Maria, o Marcelo e tantos outros que ali, assiduamente, freqüentavam. E, à medida que a luz amarela natural era substituída por um azul petróleo da noite, iluminado pelas lâmpadas do próprio Mercado, o silêncio testemunhado durante poucas horas da tarde cedia lugar às calorosas conversas de funcionários públicos, jovens universitários, trabalhadores braçais e do terceiro setor e de muitos outros, que invadiam o ambiente e se misturavam às ofertas dos garçons: “dobradinha, sarapatel, agulhinha!”, caracterizando como descontraído, popular e, por isto mesmo, charmoso o happy hour com os amigos.


Embora venha de outro estado e, ainda mais, seja novata neste universo tipicamente baiano, mas que se repete com as devidas adequações em diversos outros lugares do Brasil, observava – nesta mesma tarde – um caráter duplo do tradicional Mercado do Peixe e, com meus botões, enquanto ouvia duas colegas se apropriarem (com desenvoltura, segundo a minha pouca experiência) das técnicas de pesquisa qualitativa, utilizando-se de um roteiro semi-estruturado para sua entrevista, aproximava o famoso Mercado Central, tão mineiro como apenas ele, daquela realidade que se me apresentava.


Dois redutos de tradições e costumes que, autenticamente, demonstram contemporaneidade e certa sofisticação: era a conclusão a que chegava após percebê-los como fortes instrumentos de resistência (ainda que não desvinculados) a uma cultura de lightização dos padrões alimentares e corporais. Contemporâneos pelo seu caráter boêmio; sofisticados pela valorização do tradicional, daquilo que agora se faz diferente e incomum. Representam, assim, cada um em sua cidade, espaços sociais onde se permite “esfriar a cabeça” com uma cerveja gelada e esquecer o controle ditador de regras e passos para uma vida saudável.

Agora, alguns dias depois desta visita, me esforço por lembrar o nome do único entrevistado que silenciosamente acompanhei. E percebo certa ironia ao recordar apenas o seu peso: 108 kg. Sem conhecer devidamente o roteiro elaborado para a pesquisa em questão, a cada contradição e engasgo emitido pelo jovem de 23 anos que se propôs a colaborar com nosso trabalho, eu ansiava por perceber as nuances de suas respostas e as entrelinhas que poderíamos, posteriormente, desenvolver.

Percebia, então, algo sutil a revelar-se em seu humor, presente durante quase toda entrevista, sobretudo quando o questionamento parecia incomodá-lo ou fazê-lo refletir sobre suas escolhas e a maneira de perceber e lidar com o próprio corpo; em seu modo de concluir as frases com um “né?”, ora direcionado aos seus amigos (nenhum acima de 80 kg), ora direcionado às entrevistadoras; e em sua firmeza e segurança ao definir-se distante das exigências estéticas, internalizadas como únicas e obrigatórias pela maioria. Percebia, também, as estratégias utilizadas para justificar suas dissonâncias, quando ele mesmo parecia notar-se contraditório. Desta forma, a cirurgia bariátrica pôde ser explicada com a incansável insistência de sua mãe, preocupada – antes de tudo – com a saúde do filho; a manutenção de seu peso corporal, a despeito da insatisfação confessada após alguns bons minutos de conversa, pôde, por sua vez, ser atribuída ao maior valor conferido aos momentos de descontração com os amigos (sempre em uma mesa de bar) e; finalmente, o sedentarismo justificado como um fim inescapável já previsto para sua vida – ele, que desde criança era o gordinho da turma, nunca se enxergou capaz de mudar seus consolidados hábitos.

À medida que juntos, sutilmente, construíamos estas percepções, nos aproximávamos daquele raciocínio que conduziria aos significados e sentidos relacionados à noção de “corpo” – principal objeto de análise do estudo. E assim, ao reconstruir o momento, vejo agora a imensidão de subjetividades impregnadas na tentativa, quase frustrada, de definir o conceito: “ah, corpo, corpo... difícil. Corpo é aquilo que carrega... (...); acompanha. Sei lá, não sei. Essa a gente pula”.



PS. Este texto é um diário de campo feito a partir de vivência proporcionada pelo projeto Corporalidade e Comensalidade, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura - UFBA.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Estar só.

Agora à noite, enquanto descanso meus braços na janela e permito ao vento recortar meus cabelos, olhos e lábios, vejo a vida se refazendo após um dia de trabalho. As luzes pequenas e distantes, de um brilho esvaído e quase silencioso, bordam histórias que não são minhas.

Através daquelas janelas, do meu lado cru, real, calado, ouso sair para embarcar em emoções que já não posso sentir. Imóvel, permaneço imersa em pensamentos anestésicos, espelhos de um mundo cão que não me deixa respirar. Passo horas assim, imaginando - por ventura - qual a força capaz de me tirar a letargia. Cansada de tantas aventuras alheias e ausências (im)próprias, me ajeito calmamente por entre a cortina entreaberta e por ali continuo, a observar as luzes que se acendem. E se apagam.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O ar seco e os raios duros do sol recortavam a terra árida de um sertão escondido. Pouco ventava e o que era possível ouvir angustiava a alma. O silêncio se fazia Senhor e permitia, apenas à respiração ofegante, acompanhar os cascalhos se acomodando conforme a passagem da moça. Seus pés descalços, já grossos e emoldurados pela escassez nordestina, abriam o caminho longo que, quem sabe, poderia lhe levar a algum açude próximo. E a saia longa, amarrada por entre as pernas - leitos de rios azuis avermelhados que por ali não se via sequer de outra cor - por vezes arrastava a poeira para junto de si, misturando sua pele e sua roupa à paisagem sépia que parecia agora extensão de seu corpo. Os galhos retorcidos e abundantes se identificavam àquela única que se movia abaixo das poucos nuvens, espaçadas num céu alaranjado pálido. E o suor, escorrendo pelo rosto vermelho e triste, passeava pelo retrato do chão rachado, estendido à sua frente. O contato daquelas gotas com a superfície epidérmica, um dia mais feminina, servia para lhe aliviar o peso trazido em suas têmporas e chegava a lhe refrescar quando, inutilmente, o vento (pretensioso) tentava soprar por aquelas bandas. Em alguns momentos parava. Com um movimento de sua caixa torácica, introduzia em seus vasos e pulmões - rios e poços interiores - parte daquela aridez incômoda. Passava as mãos pesadas sobre a testa e retomava o passo trôpego. Ainda estava, incrivelmente, distante do azul líquido que procurava.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ainda sinto um cheiro antigo na sala
O largo sorriso continua estampado pelos cantos
E o barulho das folhas, lá fora, ficou ensurdecedor
Talvez seja o silêncio encantado de sua voz ausente

A saída da última casa da rua com cheiro da canela lhe fez bem
Mora agora no quarto com vista para as estrelas
E lá do último andar, o céu cúmplice é seu companheiro
Fantasiam conversas a noite inteira

Dorme junto aos bilhetes e retratos colados no armário
E chega falando dos sonhos que teve durante a madrugada
Talvez seja a tranqüilidade de ver a menina morando ao lado
Mas é a partida misturada com chegada

Bem sei dos seus planos cheios de vida
E os olhos brilham ao falar dos caminhos a percorrer
A distância alimenta alegremente a saudade
Na esperança de encontros próximos durante o amanhecer.


* Este texto foi escrito por Raul Spinassé, o mais novo fotojornalista da cidade-cor: direto da cidade das águas.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Devaneios julinos

São dezessete cadeiras à minha frente. Todas vazias, reluzindo ao calor do sol o branco limpo de uma manhã sem nuvens. Do salão, posso ouvir o barulho da vida lá fora: são carros que se apressam, pessoas que se cruzam, um avião que passa, vozes que não calam. Posso ouvir nosso mundo de dez dias. Do refeitório chegam até mim sons de esperança. São sorrisos alegres que nos exclamam o verdadeiro - o todo é, realmente, maior que as partes. E não ouço nada dentro de mim. Chego a me perguntar se um dia já ouvi.
Aos poucos, as cadeiras são preenchidas, uma a uma, pelas mais lindas e coloridas jóias. Embora jovens, são elas imensos repositórios de qualidades e mudanças. São as pérolas da mudança. Uma criança sorri e correndo se dirige ao centro. Em suas mãos não há muitas linhas. São mãos tão lisas... Diferentes daquelas que me acompanham por vinte e um anos: mãos já calejadas, já marcadas, já castigadas. Nem parecem mãos de uma jovem. Sem ter elas qualquer culpa, sozinhas, são a única porta pela qual todo o meu mundo se revela.
Será essa minha única compreensão sobre o meu mundo? Linhas marcantes, frágeis, contínuas e recortadas.
Um cachorro late e me chama à realidade. O vejo magro e marrom atravessar a grade da porta de ferro. Olho para Raul e o sinto bem próximo a mim - é o seu sorriso revelador dos nossos segredos e planos. Olho para as suas mãos e as vejo firmes e seguras. Tranquila, suspiro aliviada, pela certeza de que serão essas as responsáveis por, nas minhas mãos, fazer o sertão virar mar.

terça-feira, 13 de julho de 2010

O menino segura em suas mãos uma bola
De longe, já posso vê-lo.
Momentos tão graciosos...
Bailarino que és, dança seu futuro
E comemora os doces suspiros
que por hora lhe são concedidos.

O menino lança as mãos para o céu.
É bola solta no ar
E quando, imensa e redonda, beija seus pés
Se abre em riso frouxo. Largo. Espontâneo.
Ansioso por conhecê-la por inteiro,
ele rapidamente a apanha e a toma em seu colo.

É quando percebe: há vida ali!
Tão perto de si...
Menino e bola dançam
E embora a princípio pareçam ouvir diferentes melodias,
já posso fitá-los em sintonia.

Há vida. E há também sintonia.
A bola, até aquele instante espelho de cor,
torna-se intensamente azul.

E o menino com sorriso nos olhos -
sabedor das alegrias por vir -
festeja o azul.
O maior que há no mundo!

Há vida aqui.
De dentro do menino vejo:
Há vida!
E ela é azul.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

O que está em mim

Passos vagarosos em direção ao mar
A onda, o sal, o azul
Onda revolta que me leva plenitude
É a calmaria que se estende em meus braços
De suas águas salubres, oferece-me sal
Vida. Vida-Alma. Alma
É alma...
E todo o azul de seus mistérios
pretende esvair-se em espuma branca
E o pescador que por ali navega
abre os braços e lança a rede.

Por que escrever é tão difícil?
Às vezes, o mar precisa chover.
Estou chovendo.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Confissão

Nove meses em Maceió e posso sentir as dores do parto. A saudade de uma vida em Belo Horizonte (e que horizonte belo!) parece - a todo o momento - rivalizar com a atual meta e desejo de serviço à Causa de Deus.

É o clima fresco e limpo de BH que invade o ônibus alagoano enquanto vou para UFAL; é o cartaz colado na parede da Universidade anunciando os melhores cursos em uma cidade tão distante, lá para o Sudeste brasileiro (eita, Minas distante...); é o forró bem ao pé do ouvido, quando, sozinha, deito para dormir e me permito ir, por alguns minutos, às bandas mineiras; são as lembranças - inevitáveis, diria - de momentos deliciosamente mineiros. Às vezes, é o meu próprio sotaque, quando digo (poucas vezes, confesso) um uai firme em vez do (já) habitual eita.

Ainda não contei a ninguém. Portanto, leitor, guarde segredo. É que pelo menos uma vez ao dia passeio pela Raja Gabáglia. Quando me é possível, entro em alguns lugares e consigo voltar o tempo. São lembranças distantes e recentes: primeiro, a ida para o colégio, depois os sábados no Ateliê e as segundas ou quartas na Floricultura. Ah, caminho da roça...

E quando dali tenho que ir, sigo para a Prudente de Morais. Lá é onde jogo capoeira, onde sinto o frio na barriga ao pé do berimbau e a alegria contagiante das palmas e vozes negras na roda. É por ali também que chego à casa de meus avós. Vejam! Agora estão sentados tomando café. Vovô em sua cadeira de sempre e vovó ao seu lado - como todos esses anos. À frente deles, biscoito de polvilho, broa de fubá e manteiga. Ela bebe café com leite. Ele, só leite.

A alguns poucos quilômetros dali, encontra-se minha outra avó. É para onde vou. Em seu quarto, a vejo tricotando enquanto escuta as notícias pelo rádio. Algumas vezes precisa parar - é o telefone que toca e lhe rouba uns bons minutos. Gosto de debruçar na janela de seu quarto, principalmente quando a brisa fresca vem nos visitar. A depender do momento que assim faço, vejo Carol, lá embaixo na avenida, indo ao colégio. Ou meu pai a deixando logo cedo, pela manhã. Nessas horas, estou no banco de trás do uno azul, esperando a minha vez de ser deixada na escola.

Agora posso ver! Alguém mais vê? Você, leitor? Somos Carol e eu descendo a ladeira que nos leva da Barragem à Prudente. Calças brancas, cordão verde e cinza na cintura. "Berimbau chamou". É preciso seguir...

Subindo a Joaquim Murtinho, logo estou na Savassi. Savassi da Silvia, da espera do ônibus que nos leva à Santa Tereza ou à UFMG. Savassi da Getúlio Vargas, Cristovão Colombo e Contorno. Quando não estou muito cansada, passeio pelas suas ruas. Levo sempre alguém comigo: hoje estou com minha mãe. Daqui a pouco nos sentaremos para beber uma água e conversar. Aproveitamos esses momentos, tão rápidos, para matar as saudades.

Mais um tempinho e encontrarei com Ana em frente à Ginga. Iremos à Alfredo Balena (ouvem o barulho das pessoas nas filas e o cheiro de fumaça dos ônibus? É essa a região hospitalar, abraçada pelo Parque Municipal... Parque do Conexão Vivo, Vander Lee, Paulinho Moska e Curumin. Nos vejo na fila - enorme - esperando nossos amigos. Quanto tempo... As imagens estão um pouco amareladas... percebem? Já não vejo nada. Estou acolhida no melhor abraço do mundo e ganhei o cheirinho mais gostoso do Universo).

Na volta, Ana e eu - como sempre, juntas, inseparáveis - subimos a Nossa Senhora do Carmo. Avenida de domingos na Blunt com Gabri, ainda menino; de esperas em frente ao colégio às 12h50, de sol quente, bastante sono e fome incontrolável. De Ponto do Açaí e Raízes. Avenida que conduz minha amiga até a rua Universo e esta mesma rua aos forrós de toda a cidade! E por gentileza, leitor, você pode tapar os ouvidos agora? É que estamos falando tanta bobagem. Você vê como rimos? Tudo bem, deixaremos para conversar no forró - quando o som da zabumba, da sanfona e do triângulo nos permitirão tagarelar à vontade. "Mas, Ana, quero dançar!".

De vez em quando, visito a UFMG. Pouco antes, faço o trajeto rotineiro que me conduz de casa à Universidade. Passo pela Bento Simão e me vejo correndo: 32 minutos! E, nossa, como estou vermelha e cansada! Adoro esse bairro! Que refúgio... é o da minha casa. Nossa rua, nosso prédio, nossa vizinhança. Escuto as crianças brincando após as aulas: gol a gol, aventura, esconde-esconde. Somos nós, enquanto nossos pais não retornam do trabalho.

Na UFMG, às vezes, assisto aulas, outras converso com Karine, Ana e Jorge e sinto meu coração tão apertadinho (deve ser a saudade. Mas como, se com eles estou?). Almoçamos e rimos das histórias compartilhadas.

E já é hora de ir...

Aproveito sempre os últimos instantes para sobrevoar toda a cidade. É, leitor, em BH posso voar! (Mas isso também é segredo). Do alto da Serra, fecho meus olhos e salto de braços abertos, numa tentativa de abraçar cada lugar, cada canto e Recanto que faz parte de quem hoje sou. Rua do Amendoim, Praça do Papa, Mangabeiras, Sion. Anchieta, São Bento, Belvedere e Santo Antônio. Dona Clara, Mineirão, Mercado Central. Santa Tereza, Prado, Santa Lúcia e Cidade Jardim. Centro, Cidade Nova e toda a cidade! São tantas saudades. Incontáveis, inumeráveis, imensas.

Enquanto vôo sobre Belo Horizonte, levo um pouco de cada mineiro que pertence à minha história. Trago todos os dias um pouquinho de cada um deles dentro de mim (é onde posso guardá-los). E, leitor, de coração: não tenha dúvidas! Você também está aqui. Parte de você está comigo em outro canto do Brasil, me ajudando durante a adaptação à tapioca e ao cuscuz e me aconchegando quando minha companhia é a própria solidão.

E devo admitir a você que me acompanhou até aqui: minha fraqueza exige que o retorno seja lento, gradual. Do vôo em BH, aos poucos, alcanço o mar, passo por Salvador (minhas Minas Gerais na Bahia) e chego em Maceió.

Todos os dias, após alguns minutos, vejo-me no quarto: parede verde, armário no canto esquerdo, livros na estante. Você pode ver? Sento-me na cama, o quarto está escuro e ouço apenas o ventilador. Faço uma oração e vejo minha recente viagem transformar-se em borboleta. Tão linda...

Abro a janela e a permito voar. Livre...

Já posso dormir...

sexta-feira, 26 de março de 2010

Um mandarim estava apaixonado por uma cortesã. "Serei sua", disse ela, "quando tiver passado cem noites a me esperar sentado num banquinho, no meu jardim, embaixo da minha janela". Mas na primeira noite a cortesã se levantou, pôs o banquinho embaixo do braço e sentou ao lado do madarim: esperariam juntos.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ela disse adeus

Para luaR
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Era um campo enorme e verde. Dele ao longe podia-se avistar a imensidão azul do mar. A brisa era fresca e dava vida-alma a tudo que se permitia adentrar aquela realidade.
E havia uma casa. Desta, abria-se para fora uma única janela. Era o porto da menina, janela pela qual ela via o mundo e deixava que o sol a visse. As duas - casa e janela - eram já velhas, desgastadas pela força da luz que recebiam por tantos amanhecer. E embora frágil para os estranhos, era firme. E era especial. Ela guardava a menina com o sorriso da esperança e a tranquilidade da confiança em Deus.
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Todos os dias, logo cedo, a menina era convidada pelo sol a deitar-se sob o verde do campo, ainda úmido pelo sereno da noite anterior. Permanecia ali por um bom tempo. Transformava-se em parte daquela natureza enquanto mergulhava, tão ensimesmada, em sua própria. Costumava levantar-se e caminhar até a pedra mais alta, de onde contemplava, distante, o avançar e recuar da infinidade turquesa de um azul que abria-se em mar. Nunca havia se aproximado.
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Até que certo dia, a brisa - aquela mesma vivificadora de almas - soprou dentro da menina uma vontade grande. E era essa uma vontade tão intensa que não foi possível hesitar.
E a menina correu. Correu muito. Enquanto cortava, com seu próprio corpo, o campo cada vez mais fértil, sorria, assustada com sua própria coragem. Vez por outra, parada de braços abertos e olhos fechados diante do sol, amedrontava-se, sentindo-se pequena e alheia demais àquilo que ela mesma fazia. A brisa insistia em soprar e a menina dava passos cada vez mais rápidos e maiores.
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Tudo, naquele momento, eram seus passos. Rápidos, seguros, cheios de certeza. Não havia mais campo ou verde ou casa. Tudo era o avançar da menina em direção ao mar. Pressa. Silêncio. A brisa não mais soprava. Era o fim do caminho e agora ela estava ali na areia. Não havia vento, não havia som nem tempo. Vagarosamente e com o cuidado de um beija-flor que retira o mel da flor, ela passou pela areia e alcançou a água. Linda! Tão impressionante, tão magnética, tão transparente. Olhando para o mar, a menina se viu pelo reflexo. Imaginou-se, ela, em íntima comunhão com a imensidão azul. Apaixonou-se. Apaixonou-se pela certeza da união com o mar, pela sua tranquilidade e plenitude e apaixonou-se pelo amor que descobriu dentro de si. Ele que sempre estivera ali. Sempre quieto e calado. "Seria a sorte de um amor tranquilo?".
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Não havia ansiedade. Foi uma descoberta calma. A menina não mais corria ou tinha pressa. Tempo. Nesse primeiro encontro, contentou-se em molhar os pés, as mãos e o rosto e em olhar, profundamente, seu novo velho amor. Voltou para a sua janela e ficou a esperar o amanhecer, trazendo o convite do sol. "A brisa há de soprar novamente".
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Não soprou. Aquela bruma - e todos os outros ares - se importavam agora com um outro norte. Mas a menina, sem disso saber, continuava a esperar, desejando beijar com sua alma a água mais límpida já vista. Tempo, tempo, tempo. Nada.
O mar, distraído com sua própria existência, não percebia. Mas, apesar de distante, fez-se presente no desabrochar da menina. Deitada no verde campo, ela se enxergou. Viu cicatrizes, saudades e imperfeições. Gostou de si. Pensou que sobreviveria a tudo que pudesse lhe causar dor e confiou em Deus.
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Nesse mesmo dia, logo quando o sol se despediu do céu para nascer em um outro horizonte, ela se dirigiu ao mar. Não correu. Serena, atravessou o campo, sentiu a areia e fitou tudo ao seu redor: o mar estava a beijar a lua. Era o luar mais acolhedor que poderia existir. Mar e lua eram um único ser e aquele espetáculo de cor fez vibrar o coração da garota. Ela, aos poucos, se fazia mulher e via sua certeza transformar-se em paciência. Dirigiu-se a água, molhou os pés, as pernas, a barriga, os braços, o rosto... Mergulhou por inteiro e se fez mar aquela noite. Admirou o luar como nunca fizera antes e guardou, em si, cada sensação, pois sabia da saudade que sentiria após aquele último encontro.
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Saiu calmamente da água. Tateou a areia e chegou à terra firme. Passou pelo campo e voltou para a casa. Fechou a porta e abriu a janela. Pensou em chorar, mas alegrou-se pelo que vivera e pelo o que estava por vir, longe de tudo aquilo.
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Por muitos anos, ainda subia a menina na pedra mais alta para admirar o mar. Ela não iria mais à praia, mas contentava-se em esperar o anoitecer, só para ver a lua se aproximar e deitar, amarela, sobre as ondas. A menina estava feliz. E logo descobriria um novo amor. Amor para amar. Amor para amar o mar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Às vezes, faz-se necessário ouvir o silêncio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vinte e uma primaveras

Se, nesse momento, meu coração pudesse ser representado, não seria através do vermelho comum e das formas arredondadas que se unem, terminando como na ponta de um triângulo. Não, meu coração agora não tem essa forma...

Meu coração são aqueles sorrisos. Sorrisos doces e cheios de cor daquelas crianças que abrem suas almas e as entregam em minhas mãos, quando brincamos de queimada, jogamos capoeira e corremos pelas ruas da Jaqueira – eu, numa tentativa já sabidamente frustrada de escapar das mãozinhas e dos abraços, quando afirmam orgulhosos “peguei,tia!”.

Meu coração é o abraço daquela mãe, que se felicita por me oferecer um copo d’água. Ela não sabe, mas é esse o melhor copo d’água de minha vida. É água que dá a vida. E é também aquele olhar profundo e confiante de uma nova amiga, responsável por amar, educar e transformar em homens seus cinco meninos.

Ele possui, ainda, a forma da esperança, aquela que se revela quando fecho os olhos e é sobre uma certeza que minha alma pousa. Certeza essa, mesmo que inquietante, alentadora. E nem por isso carregada de paradoxos. Ao contrário... Esperança naqueles olhos de mar, capazes de ser o Salvador de todos os meus momentos por vir. Capazes de tingir de amarelo, vermelho, laranja e azul Royal todos os meus dias.

Ele, o meu coração, tem uma melodia de Oswaldo e vibra ao sentir a força do atabaque e a gravidade do cajón; e se emociona ao som da flauta doce, doce como ele próprio.

É Sol. Sol que aquece e é a fonte de todas as coisas que há em mim. Aquele que dá vida e ilumina os caminhos, porque ainda que carregado de representações belíssimas – e reais – esse meu coração é um campo vasto e desconhecido. Há de ser fertilizado.

E a intensa busca bem conhecida por ele será então satisfeita, quando perceber que é, sim, em suas cidadelas que estão todos os segredos do Universo. Tão coloridos, tão intensos, tão vivos. E como é fácil perceber! Vê-de. Quão evidente e, ao mesmo tempo tão tênue! Basta olhar e ver. Porque metade de mim é amor. E a outra metade também.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Sabedoria maior

29/10/2009
Preconceito
Era uma vez o menino negro que estudava em uma escola chamada Sérgio Luiz. Os meninos que estudava na mesma escola ficavam humilhando ele, chamava de negro safado e disse que não era para ele estudar na mesma escola. Então o João foi dizer a professora. A professora chamou a mãe de João e as mães dos meninos. O meninos pediu desculpas a João, que foi humilhado.
Por isso que não podemos fazer o que aconteceu, porque nós samos diferentes por fora e igual por dentro.

Texto de Weudes de Jesus Santos, 10 anos, morador de Chã da Jaqueira

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nostalgia

Ri, peguei sol, fiquei ardendo. Chorei, tomei picolé e cremosinho, comi bolo de inhame com noz moscada, canela e essência de baunilha. Fiquei com raiva. Abracei, senti saudades. Controlei minha raiva. Corri. Corri mais algumas vezes. Falei bobagem, fiz oração, ouvi bobagem. Terminei um livro. Comecei outro. Vi seis filmes. Lembrei da Ana e senti saudades. Pensei em Itaúnas. Fiquei indecisa, li meu mapa astral. Me impressionei comigo mesma e com a sintonia de Thiago. Senti frio na barriga, fiquei ansiosa, tive dor de barriga. Me senti entediada. Bebi água de coco, comi tapioca. Andei na orla à noite, fui pra Ponta Verde num domingo. Achei um espaçozinho na areia. Tomei banho de mar, dei aula para criança. Brinquei de pega-pega, fiquei sem ar. Senti raiva do vento e das figurinhas das crianças. Fui pra Jaqueira. Peguei ônibus, andei de carro. Deitei na rede, senti o vento gostoso no rosto. Fui a um aniversário. Conheci Sauaçuí, liguei para o meu pai. Escrevi para Ana, mandei mensagem para o Garrote. Senti medo de voltar para casa. Pensei na faculdade, senti medo de voltar pra Nutrição. Lembrei de meus avós e senti o coração apertar. Terminei o Livro 2 com a Sara, o 6 com o Flávio e o 4 com a Maria. Comecei o 7 e dois 6. Terminei a segunda unidade do 6 com Edla e Tamiri. Comi brigadeiro. Ouvi a história de Manuela. Sofri ao saber ter ela planejado a morte de seu marido, Antonio. Senti medo de Antonio e Pedro. Beijei a bochecha rosinha do Guilherme. Pedi ajuda ao Junior na aula de criança. Facilitei grupos de pré jovem. Me emocionei com os alunos. Ouvi Maria dizer que não gosta de pensar em quando eu for embora. Ouvi a mesma Maria contar ter um trauma. Ouvi, ainda, dizer que seu filho W. tem a ajudado superar, pelo exemplo que tem visto em nossas aulas. A vi alegre por estar aprendendo a ler. Ofereci ajuda a uma mãe que pediu. Escutei sua história a respeito do filho que roubou. Abracei Bruno. Recebi dele vários presentes. Amei e guardei todos eles. Tomei banho gelado. Senti muito calor. Tentei reconciliar Sara e Laçana, Emily e Érica. Ainda não tive sucesso nisso. Ri com Quitéria. Ouvi me chamarem de "exigente". Fui sincera com Raul. Conversei com André. Sonhei com pessoas especiais. Senti vontade de dizer e me calei. Pedi conselhos à Jovanka. Falei ao telefone com minha mãe. Chorei. Ouvi a voz de Carol, Silvia e Garrote. Também de Ana e Nanda. Conversei com antigos amigos. Senti vontade de dançar forró. Ouvi Oswaldo, Luiz Gonzaga, Meketrefe e Teatro Mágico. Estudei sobre o "ego". Colori, recortei, colei e remontei. Escrevi. Amei muito. Pedi a Deus. Orei pelo meu futuro. Pedi pela humanidade. Li sobre Pedagogia. Dormi, descansei. Pensei em Psicologia e perdi o sono. Vi Edla e Sara se lambuzarem na areia. Vi as duas e Raul brincando de lutinha na sala. Ouvi o pum do Raul ao fazer força na luta. Ri muito. Conversei pelo MSN, senti saudades de Tahirih e Bahiyyih. Fiz amizade com Neli e troquei dicas sobre bolos. Fui à reunião devocional e ao teatro. Dancei forró com um senhor. Dancei mais com Cadu e Denis, amigo de Edla. Levei bolo no Galileu. Nunca mais voltei ao Cleto. Tive muitas manhãs "livres". Falei um oxi cantado. Ensinei a Fé e aprendi muito mais. Me esforcei e recebi confirmações. Tentei me conhecer.
Pedi aos alunos que escrevessem na folha em branco futuro. Estamos, agora, esperando por ele.
...


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Na Jaqueira,

As crianças aqui brincam de chimbra. Passam o dia com chinelo de dedo e bermudinha, enquanto correm pelas ruas da Jaqueira. Seus joelhos guardam as marcas de cada brincadeira, os lembram de cada tombo e de cada dor. "Gostosa essa dor da infância". As bicicletas não param nem por um minuto. Aquele par de rodas é guiado, a cada volta, por uma criança diferente: apesar de levadas, aqui elas sabem dividir.

As brincadeiras se misturam aos sons vindos do bar - de uma gente que não tem trabalho fixo. Aos cheiros dos cachorros soltos na rua. E ao perfume das mães cansadas pelo serviço de casa.

Algumas já sabem cozinhar e varrer o chão. Outras não fazem mais que brincar. Poucas estudam. São crianças, apenas. E, às vezes, nos esquecemos disso. Perdemos a paciência quando o choro é estridente e, seguindo nossa limitada compreensão, mimado. Brigamos quando são desobedientes e nos irritamos quando são elas, na verdade, as irritadas.

Meus Deus, quem as ensinará a ter amor? Quem lhes dirá ser, o seu futuro, maior e melhor e mais digno do que jamais se imaginou ser? Que a terra o faça, se permanecerem negligentes os seres humanos, e nunca as abandone. São crianças, apenas.



Por Raul Spinassé - "Infância em meio aos barcos"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O intrépido abraço

Seu Manoel era um daqueles velhinhos simpáticos. Parecia guardar nos bolsos de sua bermuda azul - a mesma de sempre, mais castigada pelo tempo que ele próprio - o vigor e o espírito dos jovens. Suas palavras carinhosas eram sempre seguidas por um largo sorriso branco, capaz de revelar todos os seus 32 dentes, ainda grandes e bem conservados. O sol, seu amigo e companheiro por tantos anos à beira mar, havia deixado sua marca amarela naquela pele um dia mais lisa e hidratada. Os olhos verdes revelavam tantos mistérios quanto simpatia e amorosidade. Seu Manoel tinha um segredo: ele sabia abraçar com o olhar.
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Dona Júlia adorava fazer bolos. Para o entardecer vermelho, bolo de laranja. Para a alvorada azul, fubá. Seus dias eram assim, misturados ao cheiro quente vindo da cozinha. Ela era uma daquelas velhinhas lindas! Seus longos cabelos brancos estavam sempre presos em um coque, elegante mesmo quando seguro por grampos, desprovidos de suas presilhas - delicadas como ela mesma. Companheiras inseparáveis de Dona Júlia eram as letras. Mesmo aos 81 anos de idade, ela sentia suas mãos firmes vibrarem ao passar as páginas e seus olhos já cansados procurarem avidamente por aquele conjunto de símbolos, repletos de sentido. Dona Júlia tinha um segredo: ela sabia abraçar com as palavras.
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Formavam um casal óbvio. Não havia como não imaginar haverem sido, os dois, nascidos um para o outro. Ambos pareciam fechar os olhos quando sorriam e dormiam antes do "felizes para sempre", quando assistiam a um filme. E era sempre no que o outro estava pensando em que pensavam eles - cada um consigo.
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O outono se aproximava do fim, anunciando a chegada do inverno. E, no frio, era quase impossível segurar sozinho tanta bagagem. Eram 8 décadas de experiências e não dividi-las se tornava cada vez mais doloroso. Foi assim que, inevitavelmente, se descobriram Seu Manoel e Dona Júlia. A partir de então, os dias ganharam cores novas. E todos seriam dedicados ao abraço: enquanto Seu Manoel a olhava, Dona Júlia escrevia para ele.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Por Angela Carolina Simioni

Ah.....ela era assim,
No olhar carregava doces percepções sobre o futuro
Geralmente, nos caminhos que passava, carregava também uma mala.
Ela, menina, sentia sua mala vazia
Ladeira acima, uma mulher, sentia sua mala pesada...
Assim, ela caminhou, ela, o olhar e a mala

Caminhou, até se cansar
Até se sentir pronta.... para caminhar
Resolveu que seus dois carregamentos, estavam prontos para se encontrar!
Oxi.....
Levou a mala e o olhar à um lugar...
Indizivel
Na mala, encontravam-se,,, começos.. meios.... e fins....todos misturados e repetidos...
Ah... no olhar, cores, flores e amores

Sim....
Indizível
Mundos, distintos, complementares, singulares...
Indizível
Oticas, prismas, esferas, é isso que ela conhecia, mas o olhar não é isso
Nada, tudo, cheia, vazia, a mala está isso, mas não é isso....
Indizível, mas não invizivel, aliás, se percebia de longe, os olhos com malas e as mãos com doces...
Ah.....
Resmungou o matuto
A moça da mala cheia de doces...
Um olhar cheio de tudo
Joga com o vento, que pra não fechar os olhos, os proteje com as mãos, que agora livres...
Olha a mala, que ficou... no caminho lambuzada de doce ... no lombo de um burrico

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não esquece jamais,

Ela tinha os pés descalços no asfalto quente. No céu não havia uma nuvem e o tempo parecia se abrir em um largo sorriso azul. Ela podia sentir a quentura dos raios do sol. Era como se essa quentura, gostosa, lhe fizesse cócegas e, aos poucos, lhe invadisse todo o corpo até atingir o espírito. Ela ria - e sorria. Era um sorriso satisfeito, completo, mineiro.

Bem à sua frente, estava - linda e com todo o vigor dos jovens - a Praça da Liberdade. Meninas e meninos. Eram risadas, algodão-doce e bicicleta. Eram as avenidas próximas, a Rua da Bahia e até o Xodó. Liberdade! Liberdade, crianças! "Libertas quae sera tamen".

Em um de seus lados, apenas pelo cheiro típico, cores e sons, podia-se reconhecer - simpático - o Mercado Central. Reduto de tradições belíssimas, que ela sentia através de seus próprios pés descalços. É assim que ela desejava: contato com a terra. Com a sua terra. Eram os cestos de palha, os berimbaus e atabaques. Eram os doces de leite e cidra, a geléia de mocotó e o queijo minas. Era o queijo minas! E todos os outros queijos! E agora, o que ela sentia em sua boca era o gosto mineiro daquela delícia.

Girando, então, para o lado oposto e ainda sentindo-se banhada pelo sol, apresentava-se a ela - imponente - a Pampulha. E era de lá que vinha a brisa fresca, que balançava seus cabelos e aliviava o calor. Dali, podia-se ver a Igrejinha, a lagoa e o PIC. Se ficava na ponta dos pés, era possível ainda distinguir o campus da UFMG - rotineiro a alguns dias. Seriam mesmo dias? Ela já nem mais sabia: lhe era impossível, naquele momento, compreender o tempo.

Logo após a Universidade, estava o Dona Clara, com sua rua Estoril, seu Supermercado BH e a casa de Lucilhas, Guilhermes e Joãos. E como não dizer do Mineirão! Palco de tantos clássicos inesquecíveis, de tantas emoções incomparáveis e de muitas vitórias alvinegras. Seu coração acelerava quando fechava os olhos e era no domingo em que pensava. Sentia a emoção daqueles momentos, em que, de pé se curvava, se esticava, gritava, sofria e comemorava pelos jogos de seu Atlético.

Finalmente, logo atrás dela, vendo aquele espetáculo de cores, sabores e visões, estavam seus conterrâneos. Uma população mineira. O sotaque, o jeitinho cheinho de carinho e diminutivos tão peculiares a essa terra.

O sol parecia ser o mesmo, mas os mercados eram outros e a Pampulha carregava, aqui, outro nome e outras belezas. O Mineirão, um pouco menor, não era "Mineirão" e o clássico, CRB x CSA, alegrava uma outra torcida. O queijo, agora só o coalho e o manteiga. E o uai, um oxi deitado e cantado.

Era bom conhecer novos cantos, novos lugares, novas paisagens e costumes. Reconhecer a importância de cada um deles e enxergar-se descobrindo essa saudade, ao mesmo tempo arrebatadora e esperançosa. Mas seu coração, ah... seu coração era mineiro. E os seus pés também. E por conta disso, não lhe restava a menor dúvida: logo, ela voltaria.

domingo, 26 de julho de 2009

Petulante

Ah, a saudade. Quem era aquela menina para dizer de sentimentos tão amargos? Achar ser doce uma vida dura, repleta de intempéries, contradições e mau humor. Sentimentos reais. Quem era ela para dizer, sem nunca ter amado intensamente, sem nunca ter sofrido verdadeiramente, sem nunca ter partido para não mais voltar.
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Que ingenuidade a dela, pensar a saudade com bons olhos. Lembro-me quando ainda tinha em meu peito o frescor dos anos por vir – era uma juventude inteira pela frente. E quanta ingenuidade! Não pense que a idade me trouxe apenas amarguras e que tudo o que acredito ser, seja de fato, negro e obscuro e frustrante. Não, a experiência me fez entender a saudade. A saudade nua, sem as idealizações doces dos jovens e românticos.
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Porque é ela quem aparece quando estamos sozinhos. Quando, em um canto escuro do quarto, choramos por nossa própria condição. É ela quem zomba da impossibilidade de nos mantermos constantes, serenos e imutáveis. E é ela quem evidencia as mudanças às quais estamos, sempre – sempre, sempre – sujeitos.
Mas aquela menina não precisa saber. Ainda.
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É cedo, menina, para que você descubra serem irreais todas essas fantasias. Levanta, corre, emociona e a si mesmo. E abraça o mundo, assim como deseja.
E por fim, menina, não escute meus conselhos. E se possível, conserve essa saudade. Essa saudade que é só sua.