Eu você e todos os encontros casuais
os ais e os hão de ser e todos os casais também
olha, acho até que quem achou que nunca ia
esse ia se espantar de ver que o ódio e o amor
e até eu vou pra ver no que vai dar
a massa a moça
e até esse pra sempre
tudo passa.
sexta-feira, 21 de novembro de 2008
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
Jorge Henrique

Ele tinha nome de avô, provavelmente nascido na década de 20 ou 30. Podia também ser nome de galã de novela mexicana, daqueles que sofrem por amor e salvam a mocinha ao final da trama. Seu jeito era de menino recém chegado do interior, trazendo na mochila a saudade de casa e uma gama de valores e princípios vindos de uma família muito bem estruturada. Mas o que mais chamava atenção era o olhar. Olhar carregado de pureza, diferente daquela beirando a infantilidade e a bobeira. Era uma pureza madura, que gritava para ela a eterna criança que ele seria e se desvendava num sorriso capaz de acolher o mundo.
Não fosse o tamanho de sua cabeça, ela tinha certeza que o levaria para sempre num potinho. A vontade era essa: tê-lo, todos os dias, a seu lado. Mas isso já não era possível. Aqueles dias de aula pareciam chegar ao fim. Ainda faltavam alguns períodos (talvez metade de uma recente caminhada) e o tempo voava. E a cada dia, a certeza - o mundo era pequeno demais para ele. E ela sabia disso.
Não fosse o tamanho de sua cabeça, ela tinha certeza que o levaria para sempre num potinho. A vontade era essa: tê-lo, todos os dias, a seu lado. Mas isso já não era possível. Aqueles dias de aula pareciam chegar ao fim. Ainda faltavam alguns períodos (talvez metade de uma recente caminhada) e o tempo voava. E a cada dia, a certeza - o mundo era pequeno demais para ele. E ela sabia disso.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Conversa infantil, para Baré
- Pedro...
- Que foi?
- Ah nada. (...) Você tá tão mongol hoje.
- O que?
- Ah, nada.
- Tava pensando Manu... é que às vezes, te vejo olhando muito pra mim.
- Eu te olhando? Ah, Pedro... acho que quem olha aqui é você! E é você pra mim.
- É, tenho olhado bastante mesmo. Mas, você também. Então eu pensei que quando isso acontece, sei lá, isso de duas pessoas se olharem muito, deve ter um motivo, não deve?
- É deve. Você viu a professora hoje? Achei que ela não fosse liberar a gente! Tô morrendo de fome.
- Deve o que, Manu?
- Deve ser a Lei da Atração: VOCÊ me olha e por isso, eu te olho.
- É. (...) Manu...
- O que?
- É... (...). Também achei que a professora nem fosse liberar a gente hoje. Tava super cansado da aula já.
- Pois é. Mas, Pedro, qual motivo você acha?
- Não sei.
- Então tô certa. É a Lei.
- Mas tem que ter um motivo menina, pra essa Lei ai, de VOCÊ me olhar e me fazer te olhar.
- Menina? Nossa, que delicadeza de mongol!
- Ah Manu, tô falando de sentimento.
- (...)
- E sentimento pode ser bom e ruim. Antes de te conhecer já te via de olho em mim.
- Ih Pedro, não viaja.
- É, chega de viagem. E hoje, você vai na festa da sala?
- Vou sim! Você vai né? Vai ficar me olhando, mongolzinho?
- Agora que você vai, eu vou. Só pra ficar te olhando.
- Então tá bom! Até que você é engraçadinho!
- Manu... (...)
- Pedro... (...)
- Que horas são?
- Ah deve ser perto de uma hora. Estamos andando tem uns dez minutos no máximo.
...
- Que foi?
- Ah nada. (...) Você tá tão mongol hoje.
- O que?
- Ah, nada.
- Tava pensando Manu... é que às vezes, te vejo olhando muito pra mim.
- Eu te olhando? Ah, Pedro... acho que quem olha aqui é você! E é você pra mim.
- É, tenho olhado bastante mesmo. Mas, você também. Então eu pensei que quando isso acontece, sei lá, isso de duas pessoas se olharem muito, deve ter um motivo, não deve?
- É deve. Você viu a professora hoje? Achei que ela não fosse liberar a gente! Tô morrendo de fome.
- Deve o que, Manu?
- Deve ser a Lei da Atração: VOCÊ me olha e por isso, eu te olho.
- É. (...) Manu...
- O que?
- É... (...). Também achei que a professora nem fosse liberar a gente hoje. Tava super cansado da aula já.
- Pois é. Mas, Pedro, qual motivo você acha?
- Não sei.
- Então tô certa. É a Lei.
- Mas tem que ter um motivo menina, pra essa Lei ai, de VOCÊ me olhar e me fazer te olhar.
- Menina? Nossa, que delicadeza de mongol!
- Ah Manu, tô falando de sentimento.
- (...)
- E sentimento pode ser bom e ruim. Antes de te conhecer já te via de olho em mim.
- Ih Pedro, não viaja.
- É, chega de viagem. E hoje, você vai na festa da sala?
- Vou sim! Você vai né? Vai ficar me olhando, mongolzinho?
- Agora que você vai, eu vou. Só pra ficar te olhando.
- Então tá bom! Até que você é engraçadinho!
- Manu... (...)
- Pedro... (...)
- Que horas são?
- Ah deve ser perto de uma hora. Estamos andando tem uns dez minutos no máximo.
...
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
Ainda há tempo
Ela estava a alguns quilômetros de distancia. Mas era como se estivesse lá. Conseguia sentir o cheiro do mar, o vento fino batendo no rosto e o peito parecendo explodir de alegria. Se fechasse um pouco mais os olhos poderia ainda ver o mar. Ver as pessoas que passavam por ali, que acenavam para ela com uma receptividade inconfundível. Agora, ela já podia também ouvir o barulho das ondas quebrando e aquele sotaque. Ah, aquele sotaque que lhe amolecia a alma. Difícil era entender todas as palavras e traduzi-las para o seu “mineirês”. Mas fácil era notar como cada uma delas apresentava-se carregada de brasilidade e, assim, no fundo, todos falavam a mesma língua.
“Oxe lindinha, vai ficar ai na porta? A casa é sua”. E agora, ela entrava naquela casinha cor-de-rosa, recém pintada de Fazenda Coutos. Quem lhe abria a porta era Dona Alda. Dona de um abraço aconchegante, de um sorriso largo e de uma pureza quase infantil, que lhe disfarçava a força, a coragem, a determinação e a Fé.
Ali dentro, estavam crianças, jovens e adultos, todos moradores de Coutos. Rostos novos e desconhecidos. Expressões amigas e olhares acolhedores. Aquelas pessoas, as quais via pela primeira vez, mostravam-se carregadas de significados e a identificação parecia ser completa. Sem preconceitos, distâncias ou diferenças. Eram todos iguais. E mais do que isso, pareciam todos, um único ser.
Sentada no sofá, ao lado de sua irmã – responsável por aquele encontro único e inesquecível – ela parecia registrar com os olhos e o coração cada momento, cada palavra e cada sensação. E aos poucos, saia de lá.
Em alguns segundos, sobrevoava o oceano, passava por Porto Seguro, Ilhéus e Governador Valadares e, logo, estava em casa – de frente para o computador, três meses depois daquela viagem. Três meses para compreender que não seria necessário um texto formal, com palavras rebuscadas e concordância perfeita. Ela queria sim, escrever o seu melhor, para que pudesse ser justa ao que sentiu vivenciando tudo aquilo. Mas isso seria impossível. Optou, então, pela simplicidade. Simplicidade essa, que entendeu apenas quando voltou da casa de Dona Alda.
Agora, distante de uma realidade que já não parecia lhe pertencer, lutava para conservar o momento gravado em sua alma, o que definitivamente não era difícil. E desejava transformar o amor que sentira naquele dia em trabalho e serviço para a humanidade. Afinal de contas, sabia da existência de inúmeras “Fazendas Coutos” espalhadas por aí.
“Oxe lindinha, vai ficar ai na porta? A casa é sua”. E agora, ela entrava naquela casinha cor-de-rosa, recém pintada de Fazenda Coutos. Quem lhe abria a porta era Dona Alda. Dona de um abraço aconchegante, de um sorriso largo e de uma pureza quase infantil, que lhe disfarçava a força, a coragem, a determinação e a Fé.
Ali dentro, estavam crianças, jovens e adultos, todos moradores de Coutos. Rostos novos e desconhecidos. Expressões amigas e olhares acolhedores. Aquelas pessoas, as quais via pela primeira vez, mostravam-se carregadas de significados e a identificação parecia ser completa. Sem preconceitos, distâncias ou diferenças. Eram todos iguais. E mais do que isso, pareciam todos, um único ser.
Sentada no sofá, ao lado de sua irmã – responsável por aquele encontro único e inesquecível – ela parecia registrar com os olhos e o coração cada momento, cada palavra e cada sensação. E aos poucos, saia de lá.
Em alguns segundos, sobrevoava o oceano, passava por Porto Seguro, Ilhéus e Governador Valadares e, logo, estava em casa – de frente para o computador, três meses depois daquela viagem. Três meses para compreender que não seria necessário um texto formal, com palavras rebuscadas e concordância perfeita. Ela queria sim, escrever o seu melhor, para que pudesse ser justa ao que sentiu vivenciando tudo aquilo. Mas isso seria impossível. Optou, então, pela simplicidade. Simplicidade essa, que entendeu apenas quando voltou da casa de Dona Alda.
Agora, distante de uma realidade que já não parecia lhe pertencer, lutava para conservar o momento gravado em sua alma, o que definitivamente não era difícil. E desejava transformar o amor que sentira naquele dia em trabalho e serviço para a humanidade. Afinal de contas, sabia da existência de inúmeras “Fazendas Coutos” espalhadas por aí.
domingo, 26 de outubro de 2008
Se olhar e não se reconhecer. Ela não tinha nem 20 anos completos e já experimentava aquela estranha sensação. De onde vinha o riso rasgado? Certamente, tinha a mesma origem daquelas respostas irônicas e do jeito decidido. Ela, que até então se perdia em suas dúvidas, via-se, agora, segura em perceber-se repleta de possibilidades. O medo da “única escolha” transformara-se em desejo de abraçar todas elas.
A ironia lhe servia como luvas. Embora fosse necessário conhecê-la para perceber, tal recurso perdia toda sua sagacidade quando acompanhado da doçura de seus gestos e da pureza que, sim, ainda existia em sua alma. A mudança parecia repentina. Ela ainda se assustava em perceber a ausência da timidez, sua antiga companheira, e já não mais gostava – e aceitava – quando ela insistia em dar as caras.
Por várias vezes fixava o olhar no espelho: a busca desesperada por elementos que pudessem lhe caracterizar aos poucos foi sendo substituída por uma curiosidade do que ainda estava por vir. Em quem ela se transformaria?
Perdida em tantas novidades, já não era possível distinguir características. Todas elas se misturavam e terminavam por compor quem ela era, foi e seria.
E olha que muito – quase tudo – ainda estava por vir.
A ironia lhe servia como luvas. Embora fosse necessário conhecê-la para perceber, tal recurso perdia toda sua sagacidade quando acompanhado da doçura de seus gestos e da pureza que, sim, ainda existia em sua alma. A mudança parecia repentina. Ela ainda se assustava em perceber a ausência da timidez, sua antiga companheira, e já não mais gostava – e aceitava – quando ela insistia em dar as caras.
Por várias vezes fixava o olhar no espelho: a busca desesperada por elementos que pudessem lhe caracterizar aos poucos foi sendo substituída por uma curiosidade do que ainda estava por vir. Em quem ela se transformaria?
Perdida em tantas novidades, já não era possível distinguir características. Todas elas se misturavam e terminavam por compor quem ela era, foi e seria.
E olha que muito – quase tudo – ainda estava por vir.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Família Sentimento
Tristeza. Alguns dias acordava imponente, sagaz e atuante. Vestia-se da maneira mais elegante e não se esquecia do perfume, para deixar, por onde passava, um rastro de seu cheiro. Alimentava-se dos melhores sabores e, ao fim do dia, colhia os melhores frutos, quando ia de encontro ao Amadurecimento.
Amadurecimento. Senhor das horas, dos tempos e dono de uma sabedoria invejável. Sempre tão compreensivo e amigo, raramente deixava transparecer sinais de inquietude e insatisfação. Mas, quando encontrava-se inesperadamente com a Tristeza, assumia uma infantilidade que não lhe era peculiar e uma vontade de provar, para a Alegria – que bem a sua frente estava – toda a sua imaturidade, revertida em um choro de criança. Em um chorinho.
Alegria. Uma graça! Mas por ser, sempre, tão desejada, deixou que a soberba lhe invadisse o coração: apresentava-se só quando lhe era conveniente. Suas aparições costumavam ser grandiosas e repentinas. E, da maneira inesperada como chegava, partia, deixando lembranças e saudades. Nesses momentos de glória, diferente da Tristeza, Alegria fazia uso de um perfume discreto, capaz de ser percebido apenas pelos mais atentos e sensíveis à sua presença. Esses, não precisavam enxergá-la para senti-la.
Emoção. Era ela a mãe da Tristeza, do Amadurecimento e da Alegria. Seu maior esforço era dedicado às tentativas de transmitir aquilo que aprendera com seu marido, pai de seus filhos, o senhor Razão. Não era fácil perceber que seus três pequenos haviam dado ouvidos ao que dizia. Afinal de contas, Emoção era dona de um temperamento forte e, por vezes, se esquecia dos conselhos do senhor Razão. Mas, nos momentos em que marido e mulher – Emoção e Razão – se encontravam, às vezes, já tarde da noite, era como se transformassem em um. E, só então, era possível compreender quão unida era aquela família.
Amadurecimento. Senhor das horas, dos tempos e dono de uma sabedoria invejável. Sempre tão compreensivo e amigo, raramente deixava transparecer sinais de inquietude e insatisfação. Mas, quando encontrava-se inesperadamente com a Tristeza, assumia uma infantilidade que não lhe era peculiar e uma vontade de provar, para a Alegria – que bem a sua frente estava – toda a sua imaturidade, revertida em um choro de criança. Em um chorinho.
Alegria. Uma graça! Mas por ser, sempre, tão desejada, deixou que a soberba lhe invadisse o coração: apresentava-se só quando lhe era conveniente. Suas aparições costumavam ser grandiosas e repentinas. E, da maneira inesperada como chegava, partia, deixando lembranças e saudades. Nesses momentos de glória, diferente da Tristeza, Alegria fazia uso de um perfume discreto, capaz de ser percebido apenas pelos mais atentos e sensíveis à sua presença. Esses, não precisavam enxergá-la para senti-la.
Emoção. Era ela a mãe da Tristeza, do Amadurecimento e da Alegria. Seu maior esforço era dedicado às tentativas de transmitir aquilo que aprendera com seu marido, pai de seus filhos, o senhor Razão. Não era fácil perceber que seus três pequenos haviam dado ouvidos ao que dizia. Afinal de contas, Emoção era dona de um temperamento forte e, por vezes, se esquecia dos conselhos do senhor Razão. Mas, nos momentos em que marido e mulher – Emoção e Razão – se encontravam, às vezes, já tarde da noite, era como se transformassem em um. E, só então, era possível compreender quão unida era aquela família.
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