quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nostalgia

Ri, peguei sol, fiquei ardendo. Chorei, tomei picolé e cremosinho, comi bolo de inhame com noz moscada, canela e essência de baunilha. Fiquei com raiva. Abracei, senti saudades. Controlei minha raiva. Corri. Corri mais algumas vezes. Falei bobagem, fiz oração, ouvi bobagem. Terminei um livro. Comecei outro. Vi seis filmes. Lembrei da Ana e senti saudades. Pensei em Itaúnas. Fiquei indecisa, li meu mapa astral. Me impressionei comigo mesma e com a sintonia de Thiago. Senti frio na barriga, fiquei ansiosa, tive dor de barriga. Me senti entediada. Bebi água de coco, comi tapioca. Andei na orla à noite, fui pra Ponta Verde num domingo. Achei um espaçozinho na areia. Tomei banho de mar, dei aula para criança. Brinquei de pega-pega, fiquei sem ar. Senti raiva do vento e das figurinhas das crianças. Fui pra Jaqueira. Peguei ônibus, andei de carro. Deitei na rede, senti o vento gostoso no rosto. Fui a um aniversário. Conheci Sauaçuí, liguei para o meu pai. Escrevi para Ana, mandei mensagem para o Garrote. Senti medo de voltar para casa. Pensei na faculdade, senti medo de voltar pra Nutrição. Lembrei de meus avós e senti o coração apertar. Terminei o Livro 2 com a Sara, o 6 com o Flávio e o 4 com a Maria. Comecei o 7 e dois 6. Terminei a segunda unidade do 6 com Edla e Tamiri. Comi brigadeiro. Ouvi a história de Manuela. Sofri ao saber ter ela planejado a morte de seu marido, Antonio. Senti medo de Antonio e Pedro. Beijei a bochecha rosinha do Guilherme. Pedi ajuda ao Junior na aula de criança. Facilitei grupos de pré jovem. Me emocionei com os alunos. Ouvi Maria dizer que não gosta de pensar em quando eu for embora. Ouvi a mesma Maria contar ter um trauma. Ouvi, ainda, dizer que seu filho W. tem a ajudado superar, pelo exemplo que tem visto em nossas aulas. A vi alegre por estar aprendendo a ler. Ofereci ajuda a uma mãe que pediu. Escutei sua história a respeito do filho que roubou. Abracei Bruno. Recebi dele vários presentes. Amei e guardei todos eles. Tomei banho gelado. Senti muito calor. Tentei reconciliar Sara e Laçana, Emily e Érica. Ainda não tive sucesso nisso. Ri com Quitéria. Ouvi me chamarem de "exigente". Fui sincera com Raul. Conversei com André. Sonhei com pessoas especiais. Senti vontade de dizer e me calei. Pedi conselhos à Jovanka. Falei ao telefone com minha mãe. Chorei. Ouvi a voz de Carol, Silvia e Garrote. Também de Ana e Nanda. Conversei com antigos amigos. Senti vontade de dançar forró. Ouvi Oswaldo, Luiz Gonzaga, Meketrefe e Teatro Mágico. Estudei sobre o "ego". Colori, recortei, colei e remontei. Escrevi. Amei muito. Pedi a Deus. Orei pelo meu futuro. Pedi pela humanidade. Li sobre Pedagogia. Dormi, descansei. Pensei em Psicologia e perdi o sono. Vi Edla e Sara se lambuzarem na areia. Vi as duas e Raul brincando de lutinha na sala. Ouvi o pum do Raul ao fazer força na luta. Ri muito. Conversei pelo MSN, senti saudades de Tahirih e Bahiyyih. Fiz amizade com Neli e troquei dicas sobre bolos. Fui à reunião devocional e ao teatro. Dancei forró com um senhor. Dancei mais com Cadu e Denis, amigo de Edla. Levei bolo no Galileu. Nunca mais voltei ao Cleto. Tive muitas manhãs "livres". Falei um oxi cantado. Ensinei a Fé e aprendi muito mais. Me esforcei e recebi confirmações. Tentei me conhecer.
Pedi aos alunos que escrevessem na folha em branco futuro. Estamos, agora, esperando por ele.
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terça-feira, 22 de setembro de 2009

Na Jaqueira,

As crianças aqui brincam de chimbra. Passam o dia com chinelo de dedo e bermudinha, enquanto correm pelas ruas da Jaqueira. Seus joelhos guardam as marcas de cada brincadeira, os lembram de cada tombo e de cada dor. "Gostosa essa dor da infância". As bicicletas não param nem por um minuto. Aquele par de rodas é guiado, a cada volta, por uma criança diferente: apesar de levadas, aqui elas sabem dividir.

As brincadeiras se misturam aos sons vindos do bar - de uma gente que não tem trabalho fixo. Aos cheiros dos cachorros soltos na rua. E ao perfume das mães cansadas pelo serviço de casa.

Algumas já sabem cozinhar e varrer o chão. Outras não fazem mais que brincar. Poucas estudam. São crianças, apenas. E, às vezes, nos esquecemos disso. Perdemos a paciência quando o choro é estridente e, seguindo nossa limitada compreensão, mimado. Brigamos quando são desobedientes e nos irritamos quando são elas, na verdade, as irritadas.

Meus Deus, quem as ensinará a ter amor? Quem lhes dirá ser, o seu futuro, maior e melhor e mais digno do que jamais se imaginou ser? Que a terra o faça, se permanecerem negligentes os seres humanos, e nunca as abandone. São crianças, apenas.



Por Raul Spinassé - "Infância em meio aos barcos"

terça-feira, 15 de setembro de 2009

O intrépido abraço

Seu Manoel era um daqueles velhinhos simpáticos. Parecia guardar nos bolsos de sua bermuda azul - a mesma de sempre, mais castigada pelo tempo que ele próprio - o vigor e o espírito dos jovens. Suas palavras carinhosas eram sempre seguidas por um largo sorriso branco, capaz de revelar todos os seus 32 dentes, ainda grandes e bem conservados. O sol, seu amigo e companheiro por tantos anos à beira mar, havia deixado sua marca amarela naquela pele um dia mais lisa e hidratada. Os olhos verdes revelavam tantos mistérios quanto simpatia e amorosidade. Seu Manoel tinha um segredo: ele sabia abraçar com o olhar.
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Dona Júlia adorava fazer bolos. Para o entardecer vermelho, bolo de laranja. Para a alvorada azul, fubá. Seus dias eram assim, misturados ao cheiro quente vindo da cozinha. Ela era uma daquelas velhinhas lindas! Seus longos cabelos brancos estavam sempre presos em um coque, elegante mesmo quando seguro por grampos, desprovidos de suas presilhas - delicadas como ela mesma. Companheiras inseparáveis de Dona Júlia eram as letras. Mesmo aos 81 anos de idade, ela sentia suas mãos firmes vibrarem ao passar as páginas e seus olhos já cansados procurarem avidamente por aquele conjunto de símbolos, repletos de sentido. Dona Júlia tinha um segredo: ela sabia abraçar com as palavras.
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Formavam um casal óbvio. Não havia como não imaginar haverem sido, os dois, nascidos um para o outro. Ambos pareciam fechar os olhos quando sorriam e dormiam antes do "felizes para sempre", quando assistiam a um filme. E era sempre no que o outro estava pensando em que pensavam eles - cada um consigo.
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O outono se aproximava do fim, anunciando a chegada do inverno. E, no frio, era quase impossível segurar sozinho tanta bagagem. Eram 8 décadas de experiências e não dividi-las se tornava cada vez mais doloroso. Foi assim que, inevitavelmente, se descobriram Seu Manoel e Dona Júlia. A partir de então, os dias ganharam cores novas. E todos seriam dedicados ao abraço: enquanto Seu Manoel a olhava, Dona Júlia escrevia para ele.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Por Angela Carolina Simioni

Ah.....ela era assim,
No olhar carregava doces percepções sobre o futuro
Geralmente, nos caminhos que passava, carregava também uma mala.
Ela, menina, sentia sua mala vazia
Ladeira acima, uma mulher, sentia sua mala pesada...
Assim, ela caminhou, ela, o olhar e a mala

Caminhou, até se cansar
Até se sentir pronta.... para caminhar
Resolveu que seus dois carregamentos, estavam prontos para se encontrar!
Oxi.....
Levou a mala e o olhar à um lugar...
Indizivel
Na mala, encontravam-se,,, começos.. meios.... e fins....todos misturados e repetidos...
Ah... no olhar, cores, flores e amores

Sim....
Indizível
Mundos, distintos, complementares, singulares...
Indizível
Oticas, prismas, esferas, é isso que ela conhecia, mas o olhar não é isso
Nada, tudo, cheia, vazia, a mala está isso, mas não é isso....
Indizível, mas não invizivel, aliás, se percebia de longe, os olhos com malas e as mãos com doces...
Ah.....
Resmungou o matuto
A moça da mala cheia de doces...
Um olhar cheio de tudo
Joga com o vento, que pra não fechar os olhos, os proteje com as mãos, que agora livres...
Olha a mala, que ficou... no caminho lambuzada de doce ... no lombo de um burrico

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não esquece jamais,

Ela tinha os pés descalços no asfalto quente. No céu não havia uma nuvem e o tempo parecia se abrir em um largo sorriso azul. Ela podia sentir a quentura dos raios do sol. Era como se essa quentura, gostosa, lhe fizesse cócegas e, aos poucos, lhe invadisse todo o corpo até atingir o espírito. Ela ria - e sorria. Era um sorriso satisfeito, completo, mineiro.

Bem à sua frente, estava - linda e com todo o vigor dos jovens - a Praça da Liberdade. Meninas e meninos. Eram risadas, algodão-doce e bicicleta. Eram as avenidas próximas, a Rua da Bahia e até o Xodó. Liberdade! Liberdade, crianças! "Libertas quae sera tamen".

Em um de seus lados, apenas pelo cheiro típico, cores e sons, podia-se reconhecer - simpático - o Mercado Central. Reduto de tradições belíssimas, que ela sentia através de seus próprios pés descalços. É assim que ela desejava: contato com a terra. Com a sua terra. Eram os cestos de palha, os berimbaus e atabaques. Eram os doces de leite e cidra, a geléia de mocotó e o queijo minas. Era o queijo minas! E todos os outros queijos! E agora, o que ela sentia em sua boca era o gosto mineiro daquela delícia.

Girando, então, para o lado oposto e ainda sentindo-se banhada pelo sol, apresentava-se a ela - imponente - a Pampulha. E era de lá que vinha a brisa fresca, que balançava seus cabelos e aliviava o calor. Dali, podia-se ver a Igrejinha, a lagoa e o PIC. Se ficava na ponta dos pés, era possível ainda distinguir o campus da UFMG - rotineiro a alguns dias. Seriam mesmo dias? Ela já nem mais sabia: lhe era impossível, naquele momento, compreender o tempo.

Logo após a Universidade, estava o Dona Clara, com sua rua Estoril, seu Supermercado BH e a casa de Lucilhas, Guilhermes e Joãos. E como não dizer do Mineirão! Palco de tantos clássicos inesquecíveis, de tantas emoções incomparáveis e de muitas vitórias alvinegras. Seu coração acelerava quando fechava os olhos e era no domingo em que pensava. Sentia a emoção daqueles momentos, em que, de pé se curvava, se esticava, gritava, sofria e comemorava pelos jogos de seu Atlético.

Finalmente, logo atrás dela, vendo aquele espetáculo de cores, sabores e visões, estavam seus conterrâneos. Uma população mineira. O sotaque, o jeitinho cheinho de carinho e diminutivos tão peculiares a essa terra.

O sol parecia ser o mesmo, mas os mercados eram outros e a Pampulha carregava, aqui, outro nome e outras belezas. O Mineirão, um pouco menor, não era "Mineirão" e o clássico, CRB x CSA, alegrava uma outra torcida. O queijo, agora só o coalho e o manteiga. E o uai, um oxi deitado e cantado.

Era bom conhecer novos cantos, novos lugares, novas paisagens e costumes. Reconhecer a importância de cada um deles e enxergar-se descobrindo essa saudade, ao mesmo tempo arrebatadora e esperançosa. Mas seu coração, ah... seu coração era mineiro. E os seus pés também. E por conta disso, não lhe restava a menor dúvida: logo, ela voltaria.

domingo, 26 de julho de 2009

Petulante

Ah, a saudade. Quem era aquela menina para dizer de sentimentos tão amargos? Achar ser doce uma vida dura, repleta de intempéries, contradições e mau humor. Sentimentos reais. Quem era ela para dizer, sem nunca ter amado intensamente, sem nunca ter sofrido verdadeiramente, sem nunca ter partido para não mais voltar.
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Que ingenuidade a dela, pensar a saudade com bons olhos. Lembro-me quando ainda tinha em meu peito o frescor dos anos por vir – era uma juventude inteira pela frente. E quanta ingenuidade! Não pense que a idade me trouxe apenas amarguras e que tudo o que acredito ser, seja de fato, negro e obscuro e frustrante. Não, a experiência me fez entender a saudade. A saudade nua, sem as idealizações doces dos jovens e românticos.
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Porque é ela quem aparece quando estamos sozinhos. Quando, em um canto escuro do quarto, choramos por nossa própria condição. É ela quem zomba da impossibilidade de nos mantermos constantes, serenos e imutáveis. E é ela quem evidencia as mudanças às quais estamos, sempre – sempre, sempre – sujeitos.
Mas aquela menina não precisa saber. Ainda.
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É cedo, menina, para que você descubra serem irreais todas essas fantasias. Levanta, corre, emociona e a si mesmo. E abraça o mundo, assim como deseja.
E por fim, menina, não escute meus conselhos. E se possível, conserve essa saudade. Essa saudade que é só sua.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Despedida branca

Se eu estivesse ali todo o tempo, creio que contaria 57 vezes. 57 tentativas – todas frustradas. Eu torcia, orava, incentivava! Queria muito que ela conseguisse. Como queria desvendar todos aqueles sentimentos em letras, pontos e vírgulas! Como queria compreender tudo o que se passava naquele coração que, tão recentemente, abrira-se para uma nova realidade por vir.
Mas nada.
Nem uma letra.
Nem uma frase.
Parágrafo? Muito menos.
Resignada, ela olhou para a tela do computador – branca como nunca lhe havia parecido tanto. Dirigiu o mouse ao X no canto da página e agradeceu pelos textos já escritos. Fechou.